Brasil ratifica acordos do Mercosul com EFTA e Singapura: o que muda
O Brasil ratificou os acordos de livre comércio do Mercosul com a EFTA (Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein) e com Singapura. Para o produtor, o movimento sinaliza novos destinos para soja, carne e milho, com redução gradual de tarifas. Analiso aqui o que isso significa na p
Brasil ratifica acordos do Mercosul com EFTA e Singapura: o que muda para o produtor
O Brasil ratificou, em maio de 2026, os acordos de livre comércio do Mercosul com a EFTA (Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein) e com Singapura. Os tratados preveem redução tarifária para produtos agropecuários e industriais, com cronogramas que variam de 4 a 15 anos. A expectativa é de aumento do fluxo comercial, especialmente para carnes, soja e milho.
O que os acordos com EFTA e Singapura significam na prática
Quando um país ou bloco reduz tarifas de importação, o exportador ganha margem, ou ganha acesso a mercados que antes eram inviáveis por causa do custo da tarifa. No caso do acordo com a EFTA, o Brasil terá acesso preferencial a um mercado de 14 milhões de pessoas com alto poder aquisitivo. Já Singapura é uma porta de entrada para o Sudeste Asiático, com logística portuária de primeira linha.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o acordo com a EFTA cobre mais de 90% do comércio bilateral atual, com reduções tarifárias que chegam a 100% para alguns produtos agropecuários em prazos que variam de 4 a 10 anos. Para Singapura, o cronograma é mais curto: 4 anos para a eliminação total de tarifas em 95% das linhas tarifárias.
Impacto para a soja: novos compradores, mesma safra
A soja brasileira já é competitiva globalmente, mas o acordo com a EFTA elimina a tarifa de 5% que a Suíça cobrava sobre o grão brasileiro. Na prática, isso significa que o exportador pode oferecer um preço ligeiramente melhor ao produtor, ou absorver o ganho como margem, dependendo da estratégia de cada trading.
Para Singapura, o impacto é indireto. O país não é grande comprador de soja in natura, mas é hub de processamento e reexportação. Com tarifa zero, a soja brasileira pode entrar e ser processada lá, competindo com a soja americana que chega com tarifa de 5%. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, o Brasil exportou cerca de 1,2 milhão de toneladas de farelo de soja para a Ásia em 2025, volume que pode crescer com o acordo exportação de farelo de soja para a Ásia.
Carne bovina: o prêmio que o produtor espera
Aqui o efeito é mais direto. A Noruega, por exemplo, aplicava uma tarifa de 25% sobre a carne bovina brasileira. Com o acordo, essa tarifa será eliminada em 10 anos, com reduções anuais de 2,5 pontos percentuais. Para o produtor, isso abre uma janela: quem vender para o mercado norueguês nos próximos anos vai pagando menos tarifa a cada safra, o que tende a elevar o preço final recebido.
A Suíça, maior mercado do bloco para carnes, também reduziu tarifas, mas com cotas. O Brasil terá acesso a uma cota de 5 mil toneladas de carne bovina com tarifa zero, volume que pode ser ampliado conforme a demanda. Para quem opera carne, é uma sinalização de que o mercado europeu não está fechado, mas exige planejamento logístico e certificação sanitária.
Milho e outros grãos: efeito indireto, mas real
O milho brasileiro já tem mercado na Ásia, mas o acordo com Singapura pode facilitar a entrada em países vizinhos que compram de Singapura. O país é um entreposto comercial: recebe grãos, processa e revende. Com tarifa zero, o custo logístico total cai, o que pode tornar o milho brasileiro mais competitivo frente ao americano no Sudeste Asiático.
Para a EFTA, o milho não é o principal item, mas a redução de tarifas para etanol e proteína animal (suínos e aves) pode aumentar a demanda por milho como ração. A Noruega, por exemplo, importa ração animal e, com tarifa menor, pode aumentar o volume comprado do Brasil.
O que isso abre de janela de venda para o produtor
Eu vejo três movimentos práticos:
- Diversificação de destinos: o produtor que hoje vende soja só para China pode começar a considerar contratos com tradings que operam para a EFTA ou Singapura. O preço pode não ser muito maior no curto prazo, mas a concorrência entre compradores tende a melhorar as condições.
- Prêmio por certificação: para acessar o mercado suíço ou norueguês, é preciso atender a exigências sanitárias e de rastreabilidade. Quem já tem certificação (como o programa Carne Carbono Neutro ou soja livre de desmatamento) pode negociar prêmios melhores.
- Cronograma de redução tarifária: as tarifas não caem de uma vez. Para carne bovina, a redução é de 2,5% ao ano. Isso significa que o produtor que planeja vender para esses mercados nos próximos 5 a 10 anos terá uma vantagem crescente sobre concorrentes de fora do acordo.
Riscos e ressalvas
Nenhum acordo é garantia de preço alto. A tarifa é apenas um dos componentes do preço final. O câmbio, o frete, a demanda global e a oferta dos concorrentes (EUA, Argentina, Austrália) continuam pesando. Além disso, os acordos ainda precisam ser implementados na prática, a ratificação é o primeiro passo, mas a eliminação tarifária efetiva depende de regulamentações internas de cada país.
Segundo o Ministério da Agricultura, a expectativa é de que as primeiras reduções entrem em vigor ainda em 2026, mas o cronograma completo pode levar até 15 anos para alguns produtos. Para o produtor, o conselho é: não mude a estratégia de venda da noite para o dia, mas comece a conversar com tradings que operam nesses mercados.
Perguntas Frequentes
Quando os acordos entram em vigor?
Após a ratificação, cada país precisa internalizar o tratado. A expectativa é de que as primeiras reduções tarifárias comecem ainda em 2026, com cronogramas que variam de 4 a 15 anos para eliminação total.
Quais produtos são mais beneficiados?
Carne bovina, soja, milho, farelo de soja, etanol e proteína animal (suínos e aves) são os principais itens com redução tarifária significativa.
Preciso de certificação especial para exportar para a EFTA?
Sim, especialmente para carnes. A Suíça e a Noruega exigem rastreabilidade e padrões sanitários rigorosos. Quem já tem certificação de produção sustentável pode ter vantagem.
O acordo substitui outros mercados, como China?
Não. China continua sendo o maior comprador de soja e carne brasileira. Os acordos com EFTA e Singapura são complementares, abrindo novos destinos e reduzindo a dependência de um único comprador.
Como o produtor pode se preparar?
Conversando com tradings que operam nesses mercados, verificando a certificação necessária e planejando a comercialização com base no cronograma de redução tarifária. Não é para vender tudo agora, mas para incluir esses destinos nas opções de venda futura.