Galípolo recebe presidente do BRB enquanto resgate de R$ 6,6 bi emperra
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, recebeu o presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, em reunião a portas fechadas. O encontro ocorre enquanto o banco aguarda a conclusão de etapas para viabilizar um pacote de R$ 6,6 bilhões, em meio a complicações com garantias
No fim de junho, o agricultor familiar Antônio Carlos Rodrigues, de 52 anos, que planta hortaliças em uma área de cinco hectares em Brasília, soube que seu crédito de R$ 15 mil do Pronaf estava travado. Não por falta de documentos, mas porque o Banco de Brasília (BRB), onde ele mantém conta há 12 anos, enfrenta uma crise que ecoa nos corredores do Banco Central.
Enquanto Antônio espera a liberação do recurso para comprar mudas e adubo, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, recebeu nesta segunda-feira (27) o presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza. A reunião, a portas fechadas, durou das 15h30 às 16h30 e é mais um capítulo na novela do resgate de R$ 6,6 bilhões que o banco precisa para cobrir perdas com operações do Banco Master.
O encontro também contou com a presença do diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino Santos, e da diretora de Controle e Riscos do BRB, Ana Paula Teixeira de Sousa. Segundo a agenda oficial de Galípolo, a pauta foi "assuntos institucionais". O BRB não emitiu comunicado após a reunião.
Resgate de R$ 6,6 bilhões: o que falta para sair?
A presença da diretora de Controle e Riscos não é coincidência. A área comandada por Ana Paula Teixeira de Sousa é responsável por monitorar riscos operacionais, fiscalizar falhas e fraudes e acompanhar situações que possam comprometer a atuação do sistema financeiro. E o momento é de espera: o BRB aguarda a conclusão de etapas para viabilizar o pacote de socorro de R$ 6,6 bilhões.
No fim de junho, o Governo do Distrito Federal (GDF), controlador do BRB, firmou um acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para o resgate. Além dos R$ 6,6 bilhões, o GDF deverá aportar R$ 2,2 bilhões em recursos próprios, após promover ajustes nas contas públicas e reduzir investimentos.
Mas a operação ainda depende de três condições: a assinatura dos contratos com o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), a formalização das contragarantias à União e a conclusão das auditorias financeiras do banco.
Garantias de bancos federais travam negociação
As negociações para a liberação do empréstimo enfrentam complicações. Os bancos privados envolvidos na operação querem que a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil concedam garantias, o que levaria os bancos federais a assumirem o risco de uma eventual inadimplência do BRB.
Esse impasse é um dos principais motivos da demora. Enquanto as garantias não são definidas, o banco não consegue fechar os contratos com o FGC, e o dinheiro não chega.
BRB cancela acordo de R$ 15 bilhões com gestora
Além da demora no empréstimo, o BRB tem problemas para melhorar a liquidez, ou seja, a capacidade de vender ativos rapidamente pelo preço de valor. No último dia 17, o banco cancelou o acordo de R$ 15 bilhões com a gestora Quadra Capital.
O negócio previa a transferência de ativos ligados ao Banco Master, o pagamento parcial à vista e a criação de um fundo de investimento. Embora não ajudasse a ampliar o capital, a operação faria o BRB trocar ativos com pouca liquidez do Master (como imóveis) por ativos líquidos, já que receberia parte dos R$ 15 bilhões à vista.
O cancelamento agravou a situação de liquidez do banco, que agora depende exclusivamente do resgate do GDF e dos bancos federais.
Balanço de 2025 não divulgado e sanções do BC
Outro fator que mantém o processo em compasso de espera é a ausência da divulgação das demonstrações financeiras do BRB referentes ao exercício de 2025. A apresentação do balanço foi estabelecida como uma das exigências para a efetivação do pacote de socorro, juntamente com a conclusão das auditorias independentes.
Enquanto o balanço não é divulgado, o BRB enfrenta sanções do Banco Central, como multas. A falta de transparência sobre a real situação financeira do banco dificulta a confiança dos investidores e dos órgãos reguladores.
Reuniões anteriores e declarações do ministro
Esta não foi a primeira reunião entre integrantes do governo do Distrito Federal e a direção do Banco Central. No último dia 14, a governadora do DF, Celina Leão, participou de um encontro com Gabriel Galípolo e Nelson Antônio de Souza. Na ocasião, a governadora classificou a reunião como "técnica" e não comentou o conteúdo das discussões.
Também nesta segunda-feira, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou, em entrevista à Rádio Jornal, de Pernambuco, que o patrimônio do BRB foi comprometido por operações envolvendo ativos do Banco Master. Segundo o ministro, a instituição teria adquirido carteiras de baixa qualidade que resultaram em perdas bilionárias.
Ao comentar o caso, Durigan afirmou que o banco "basicamente passou R$ 12 bilhões para o Master e recebeu guardanapo, papel que não valia nada", em referência ao valor dos ativos recebidos na operação. A declaração expõe a gravidade da crise e a percepção do governo federal sobre o caso.
O que esperar do BRB?
Para o pequeno produtor como Antônio Carlos, que depende do crédito para tocar a roça, a crise do BRB significa mais burocracia e atrasos. Enquanto as negociações não avançam, o banco segue sob pressão do BC e do mercado.
A reunião entre Galípolo e Souza mostra que o caso está no radar da autoridade monetária, mas a solução depende de fatores externos: as garantias dos bancos federais, a conclusão das auditorias e a aprovação dos contratos com o FGC.
Até lá, o BRB continua com a liquidez apertada, o balanço escondido e as sanções do BC. E o crédito do agricultor, parado.
Perguntas Frequentes
Por que o BRB precisa de um resgate de R$ 6,6 bilhões?
O BRB precisa do resgate para cobrir perdas atribuídas a operações realizadas com o Banco Master, que comprometeram o patrimônio do banco.
Quem participou da reunião com Galípolo?
Participaram o presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino Santos, e a diretora de Controle e Riscos do BRB, Ana Paula Teixeira de Sousa.
O que falta para o resgate ser liberado?
Falta a assinatura dos contratos com o FGC, a formalização das contragarantias à União e a conclusão das auditorias financeiras do banco.
O que o ministro Dario Durigan disse sobre o BRB?
Durigan afirmou que o banco passou R$ 12 bilhões para o Master e recebeu ativos de baixa qualidade, comparados a "guardanapo, papel que não valia nada".
O BRB está sofrendo sanções?
Sim, o BRB enfrenta sanções do Banco Central, como multas, enquanto não divulga o balanço de 2025.
O que aconteceu com o acordo de R$ 15 bilhões com a Quadra Capital?
O acordo foi cancelado no dia 17 de julho. Ele previa a transferência de ativos do Master e pagamento à vista, mas não foi concretizado.