Acusado pelos EUA, Brasil é referência no combate ao trabalho forçado
Nesta quarta-feira (22), parte dos produtos brasileiros vendidos aos EUA passa a ser taxada em 25%, sob alegação de falhas no combate ao trabalho forçado. Especialistas discordam e apontam que o Brasil é referência no tema, com reconhecimento da OIT.
Acusado pelos EUA, Brasil é referência no combate ao trabalho forçado
Nesta quarta-feira (22), parte dos produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos passou a ser taxada em 25%, sob alegação de que o Brasil não impede a importação de bens produzidos com trabalho forçado. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil discordam e apontam que o país é referência no combate ao trabalho forçado, com reconhecimento da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A taxa de 25% foi anunciada no último dia 15, com justificativa de que o país falha em combater desmatamento e corrupção. O governo brasileiro rejeita as acusações e se dispôs a usar a Lei de Reciprocidade como resposta. Além disso, o governo trabalha com a expectativa de uma nova sobretaxa de 12,5%, baseada em relatório do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que investiga 59 países e a União Europeia.
Por que o Brasil é referência no combate ao trabalho forçado
O Brasil é reconhecido pela OIT como referência internacional no combate ao trabalho forçado. O Decreto 12.857, de fevereiro de 2026, formaliza a adesão à Convenção nº 29 da OIT. Dos 187 países da organização, apenas seis não são signatários, entre eles os Estados Unidos.
O país conta com o artigo 149 do Código Penal, que criminaliza a redução à condição análoga à escravidão, com definição ampla que inclui jornada exaustiva e condições degradantes. Desde 1995, os Grupos Móveis de Fiscalização do Ministério do Trabalho atuam no resgate de trabalhadores. Quase 66 mil pessoas foram resgatadas, segundo o Observatório da Erradicação do Trabalho Escravo e do Tráfico de Pessoas.
A lista suja como instrumento de transparência
A chamada "lista suja", cadastro de empregadores flagrados em uso de trabalho forçado, é um instrumento de transparência. A versão atual, divulgada pelo Ministério do Trabalho e Emprego em abril, apresenta 568 empresas listadas. O professor Thiago Romero, do Ibmec-SP, destaca que o setor privado usa a lista para cortar relações comerciais e crédito com infratores, mecanismo que a OIT recomenda como modelo.
A lacuna técnica apontada pelos EUA
Thiago Romero explica que o USTR se apega a uma lacuna técnica. "A crítica americana tem um fundo 'técnico' verdadeiro. Quando os Estados Unidos dizem que há muito trabalho escravo no Brasil, eles estão dizendo que o Brasil não possui um instrumento aduaneiro específico para proibir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado no exterior, nos moldes do modelo americano", afirma.
Nos Estados Unidos, a Seção 307 da Lei de Tarifas, de 1930, proíbe a importação de mercadorias feitas com trabalho forçado. Em 2021, a legislação foi atualizada para barrar produtos da região chinesa de Xinjiang. A União Europeia aprovou instrumento semelhante em 2024, com vigência prevista para 2027.
A diferença entre combate interno e barreira alfandegária
"Existe uma diferença jurídica entre combater o trabalho forçado que ocorre dentro do próprio território e barrar, na alfândega, produtos importados que foram fabricados com trabalho forçado em outro país", explica Romero. Ele reforça que o Brasil é reconhecido internacionalmente pelo combate interno, e que a crítica americana é uma forma de "exportar a própria legislação".
"Quando se tarifa o mundo inteiro sob o mesmo argumento, fica claro que a variável que explica a medida não é o trabalho forçado, e sim a política comercial", conclui o professor.
O que falta ao Brasil em legislação?
Há quase 11 anos tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei (PL) 2.799/2015, que propõe proibir a importação e comércio de produtos feitos com trabalho infantil, forçado ou obrigatório. O PL está na Câmara dos Deputados.
Perguntas Frequentes
Por que os EUA acusam o Brasil de trabalho forçado?
Os EUA alegam que o Brasil não tem um instrumento aduaneiro específico para proibir a importação de bens produzidos com trabalho forçado, baseando-se em relatório do USTR.
O Brasil é referência no combate ao trabalho forçado?
Sim. A OIT reconhece o Brasil como referência internacional, graças à combinação de fiscalização, responsabilização e compromisso político.
O que é a lista suja do trabalho escravo?
É um cadastro de empregadores flagrados em uso de trabalho forçado, atualizado pelo Ministério do Trabalho. A versão atual tem 568 empresas listadas.
O Brasil aderiu à Convenção da OIT sobre trabalho forçado?
Sim. O Decreto 12.857, de fevereiro de 2026, formaliza a adesão do Brasil à Convenção nº 29 da OIT.
Qual a diferença entre a legislação brasileira e a americana?
Os EUA têm a Seção 307 da Lei de Tarifas, que proíbe importação de bens feitos com trabalho forçado. O Brasil não tem mecanismo equivalente, mas combate o trabalho forçado internamente.